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Fome agrava-se no Brasil devido à pandemia

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De  Francisco Marques com AP
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Francielle de Santana comove-se perante as dificuldades
Francielle de Santana comove-se perante as dificuldades   -   Direitos de autor  AP Photo/Silvia Izquierdo
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"Horrível. É muito ruim. Muito ruim mesmo". As palavras pertencem a Francielle de Santana, ela faz parte de uma das cerca de duas mil famílias que se estima viverem em Jardim Gramacho, uma favela de Duque de Caxias, no Brasil, onde a fome nos mostra um reflexo impressionante da gravidade da situação na maior economia da América do Sul.

Há uma semana, uma reportagem do jornal "Extra", da "Globo", impressionou pelas fotos de pessoas a esgravatar num camião com restos de carcaças de animais.

As imagens, impressionantes, faziam parte de uma reportagem onde se dava destaque à gravidade dos números da pobreza no Brasil após a Covid-19: 116,8 milhões de pessoas sem acesso pleno e permanente a alimentos; 19,1 milhões a passar fome.

O confinamento após a entrada do SARS-CoV-2 no Brasil, estancou inclusive a economia informal e "fechou a torneira" do rendimento de muitas famílias já então pobres.

Ao lado da filha Marcela, de oito anos, Francielle explica: "Muiita gente está passando necessidade e fome porque não tem dinheiro para comer. O arroz era três reais (cerca de €0,47), agora está mais caro", disse a desempregada, uma das pessoas que integram agora o grupo de 14,1% de brasileiros sem trabalho.

Com o Brasil também a sofrer com uma inflação de 10,1% no acumulado a 12 meses, como é sublinhado na reportagem do "Extra", é preciso criatividade para colocar comida na mesa.

Na casa de Francielle a carne ainda chega ao prato, mas agora "é mais frango". "[Ainda] é carne, mas é frango, que está a aumentar também. Com 10 reais (€1,60) vinha muita coisa, agora vêm 3 ou 4 pedaços. Para 3 ou 4 pessoas é pouco. Compra 10 na hora do almoço, tem de comprar 10 na hora da janta e vai indo", lamenta a desempregada.

Francielle ainda tem gás na botija e utiliza-o, mas conta-nos não ter dinheiro para comprar mais. Sobretudo depois das botijas de gás também terem aumentado. A solução, confia, está em vasculhar o lixo em busca de materiais recicláveis que consiga vender para juntar dinheiro e reabastecer-se de gás.

Se a pobreza em Jardim Gramacho já era preocupante, agora com a Covid-19 ficou ainda pior nesta antigo depósito de lixo, que chegou a ser considerado como a maior lixeira a céu aberto da América Latina.

Agora, esta favela de Duque de Caxias a apenas 30 quilómetros da famosa Ipanema é residência de milhares de pessoas como muitas outras favelas do Brasil. Sem água canalizada nem eletricidade e onde até as botijas de gás já não são usadas como antes.

Leide Laurentino, por exemplo, tenta poupar o pouco gás que tem para algum momento de maior necessidade.

"Estou a economizar para não acabar. Se for cozer só no gás, não vai dar. Hoje até o café eu fiz na lenha", contou a reformada, de 74 anos, acompanhada pela neta Eloa, de 2.

AP Photo/Silvia Izquierdo
Eloa, a neta de Leide LaurentinoAP Photo/Silvia Izquierdo

Ao jornal "Extra", Daniel Balaban, representante no Brasil do Programa Mundial de Alimentos e Diretor do Centro de Excelência contra a Fome, avisa que "se nada for feito", a situação "vai piorar cada vez mais".

"Não existe milagre, só vai melhorar se houver um trabalho forte e coletivo dos governos. Esse tema precisa entrar na pauta e no debate público. A curto e médio prazo, o país não vislumbra saída para o caos económico que se encontra atualmente e o Rio reflete muito o que está acontecendo no país", sublinhou.

Daniel Balaban disse ainda que o Brasil desperdiça, em média, por ano, 26 milhões de toneladas de alimentos durante a cadeia de produção, transporte e comercialização. Essa quantidade, acrescentou, seria suficiente para alimentar toda a população necessitada do país e mais metade da de África.

Em termos financeiros, esse desperdício do Brasil representa um prejuízo de cerca de 100 mil milhões de reais (cerca de €16 mil milhões).

Outras fontes • Extra