Interpol diz que Estados devem agir para travar redes globais de criminalidade

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A euronews entrevistou o Secretário-Geral da Interpol, Jürgen Stock, por ocasião do dia Internacional da Cooperação Policial.

Desde que se tornou global, a criminalidade organizada internacional funde-se cada vez mais com a política e a economia mundiais. As organizações internacionais e os organismos responsáveis pela aplicação da lei enfrentam novos desafios. A euronews entrevistou o Secretário-Geral da Interpol, Jürgen Stock, por ocasião do dia Internacional da Cooperação Policial.

Euronews: “Como está a decorrer a cooperação entre as forças policiais e a troca de informações, desde o início da guerra na Ucrânia?”

Jürgen Stock, Secretário-Geral da Interpol: “O mandato da Interpol prevê que apesar das circunstâncias políticas, e das dificuldades da situação atual, o nosso objetivo é tentar facilitar, a um nível mínimo ou o máximo possível, a cooperação policial internacional. Quando estamos perante um conflito político, é claro que temos de evitar que os nossos instrumentos e serviços sejam usados para fins políticos, e levamos esse papel muito a sério. Por outro lado, mantemos abertos os canais de cooperação policial internacional porque, mais uma vez, os criminosos exploram todas as crises que possam surgir. Em particular, no que se refere ao conflito entre a Rússia e a Ucrânia, estamos muito preocupados com as armas que estão a ser entregues e que poderão ir parar a outros teatros de operações em todo o mundo. Isso aconteceu nos Balcãs. Há muitos exemplos. Observámos que os criminosos tentam explorar as vítimas desesperadas deste conflito que tentam sair do país em busca de proteção. Estamos a falar de mulheres e crianças".

O mais importante é que não legitimamos automaticamente as informações provenientes dos nossos países membros.
Jürgen Stock, Secretário-Geral da Interpol

Euronews: “Pode contar com a total cooperação da polícia e dos serviços de segurança russos no que diz respeito ao acesso a bases de dados e à total cooperação em termos de fornecer nomes ou provas das atividades criminosas?”

Jürgen Stock : “A Interpol é uma plataforma de cooperação policial internacional. E o que vemos é que, no que diz respeito a este conflito, continua a haver troca de informações sobre os chamados crimes de direito comum. Não estou a falar de crimes com motivações políticas. Nesse domínio a Interpol tem de se manter afastada, porque não somos uma organização política.

Euronews: “Sim, é o artigo terceiro dos estatutos”.

Jürgen Stock: “O artigo terceiro é fundamental. A Constituição da Interpol diz-nos que temos de aplicar rigorosamente essa regra. Mas há crimes de direito comum. Criminosos que tentam explorar a crise e estamos a trabalhar arduamente para que os países membros da região, e todos os países, trabalhem juntos.

Infelizmente, há muitas vulnerabilidades em todo o mundo que estão a ser consideradas oportunidades para os criminosos.
Jürgen Stock, Secretário-Geral da Interpol

Euronews: “Até porque as organizações criminosas já estavam ativas muito antes da guerra. Já mencionou a 'Ndrangheta, por exemplo, de Itália, que tinha redes muito desenvolvidas tanto na Ucrânia como na Rússia. E é muito difícil imaginar que agora, por causa da guerra, esta rede tenha sido interrompida”.

Jürgen Stock: “Sim, tem razão. Temos de compreender o carácter flexível do crime organizado transnacional. Eles estão permanentemente à procura de novas oportunidades para ganhar dinheiro. Foi o que vimos durante a pandemia. Uma espécie de pandemia paralela de crime cibernético em que os criminosos se viraram muito rapidamente para as novas vulnerabilidades. Infelizmente, há muitas vulnerabilidades em todo o mundo que estão a ser consideradas oportunidades para os criminosos. Neste preciso momento, as nossas bases de dados estão a ser pesquisadas estatisticamente a cada segundo, mais de 280 vezes. Porque não é possível entender a complexidade do crime atual, se não se utilizar uma plataforma centralizada que reúne toda a informação recolhida. A nossa ambição é devolver a informação enriquecida. Ajudar a ligar os vários pontos".

Temos de compreender o carácter flexível do crime organizado transnacional.
Jürgen Stock, Secretário-Geral da Interpol

Euronews: “Podem contar com os vossos colegas russos?”

Jürgen Stock: “O mais importante é que não legitimamos automaticamente as informações provenientes dos nossos países membros. O processo de validação aplica-se a todos os países membros. Criei todo um sistema aqui no Secretariado em 2016 e nos anos seguintes para verificar todas as informações. Por exemplo, um pedido de emissão de avisos vermelhos, um instrumento célebre e muito bem sucedido que ajuda todos os anos a prender milhares de criminosos em todo o mundo. Asseguramo-nos que esse instrumento e outros instrumentos não sejam mal utilizados, usados para fins políticos ou militares”.

Euronews: “Há crimes cometidos por organizações criminosas que estão intrinsecamente relacionados com aspetos militares, por exemplo, o tráfico de armas. Como é que lidam com isso?

Jürgen Stock: “5% das informações requerem um processo de análise aprofundado. Tenho estado a desenvolver um processo complexo e uma grande equipa de especialistas. Se tivermos dúvidas fortes de que um pedido não está de acordo com a nossa Constituição, recusamo-lo.”

Euronews: “Há casos de violações dos direitos humanos, abusos de crianças e tráfico de seres humanos que também estão a ocorrer. Mas muitos destes crimes fazem parte do que está a ser considerado como crimes de guerra. Como é a Interpol lida com isso”?

Jürgen Stock: “É uma análise caso a caso. Como disse, não é algo preto e branco. É preciso ter uma boa equipa que avalie o caso sob diferentes perspetivas. Exige também a recolha de informações de várias fontes, não só do país requerente, mas também de outros países que possam ter informações sobre uma pessoa, como, por exemplo, saber se lhe foi concedido o estatuto de proteção ou o estatuto de refugiado. Esta é a razão pela qual não tomamos qualquer ação e recusamos qualquer pedido, por exemplo, de aviso vermelho".

Com a nossa base de dados de exploração sexual infantil em linha, resgatámos mais de 30 mil vítimas de abuso sexual.
Jürgen Stock, Secretário-Geral da Interpol

Euronews: “A Inteligência Artificial está fortemente relacionada com o mundo virtual da Internet e já se encontra num mundo extra-legal, onde ocorrem muitos crimes. O que está a pedir aos estados, aos líderes mundiais ou às instituições internacionais?

Jürgen Stock: Antes de mais, toda gente tem de compreender a complexidade e a ameaça que estes tipos de crime representam para a segurança nacional. Estamos a contribuir, por exemplo, no que se refere à inteligência artificial, com um produto que temos vindo a distribuir muito recentemente, um conjunto de ferramentas para a aplicação da lei nacional, para uma utilização responsável da inteligência artificial. Não podemos dizer aos nossos países membros o que têm de fazer, mas pelo menos queremos dar orientações para a utilização destas ferramentas, porque têm de ser utilizadas. Caso contrário, não podemos lidar com os grandes volumes de dados e com a disponibilidade massiva de informação que temos. E isso ajuda a Interpol. Por exemplo, com a nossa base de dados de exploração sexual infantil em linha resgatámos mais de 30 mil vítimas de abuso sexual. E cada foto, cada imagem é uma cena de crime".

Euronews: "Não acha que há uma falha na base, porque o lobby da Internet nos Estados Unidos exerce um forte controlo sobre o governo federal?"

Jürgen Stock: "Não se trata apenas de países específicos. Trata-se de uma ameaça global, claro, um pouco diferente, porque tem uma dimensão global".

Euronews: "Mas a maioria destas empresas vem dos Estados Unidos".

Jürgen Stock: "Claro, mas, há dez ou quinze anos que temos vindo a debater as questões relacionadas com as tecnologias da informação, da segurança e da necessidade de regulamentação. Estamos a dizer aos legisladores que a situação é muito grave. Estas são questões que dizem respeito à segurança nacional em todo o mundo. Não cabe à Interpol decidir que tipo de consequências políticas estão a ser tiradas, mas imaginem que a Interpol não existiria. 100 anos após a sua criação, uma plataforma onde os países membros podem partilhar informações apesar das turbulências políticas, mesmo que não existam laços diplomáticos ou que os países estejam em conflito? E é a Interpol que diz aos países membros até que ponto um grupo organizado transnacional tem vindo a espalhar os seus tentáculos por diferentes continentes. E é essa a verdadeira dimensão do crime organizado atual. Não se trata apenas de atravessar fronteiras internacionais. Atravessa continentes. É como um empreendimento criminoso global".

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