Produção energética eólica e solar quebrou recordes no ano passado

Painéis solares no Chile
Painéis solares no Chile Direitos de autor AP Photo
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Novo relatório revela dados encorajadores quanto à produção de energias renováveis a nível mundial mas ainda aquém dos valores desejados

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Os peritos apelam ao fim da era fóssil numa altura em que mostram que a energia eólica e solar produziu uma quantidade recorde de energia em todo o mundo no ano passado.

As energias renováveis produziram 12% da electricidade em todo o mundo em 2022, contra 10% no ano anterior, segundo o relatório do "think tank" de energia limpa Ember.

Apesar de um pequeno aumento no consumo de carvão tenha elevado as emissões de CO2 derivadas da produção de electricidade até máximos históricos, os analistas prevêem que este será o pico da poluição.

"Nesta década decisiva para o clima, estamos perante o princípio do fim da era fóssil", diz a autora  principal do estudo Małgorzata Wiatros-Motyka. "Estamos a entrar na era da energia limpa", afirma.

Se a energia limpa satisfizer toda a nova procura este ano, como se espera, o quarto relatório Global Electricity Review da Ember prevê uma pequena queda na produção de energia fóssil em 2023.
Quedas maiores deverão seguir-se, à medida que o vento e a energia solar ganharem terreno.

Como é que as fontes de energia se estão a tornar mais verdes?

No ano passado, a energia solar foi a fonte energética de crescimento mais rápido pelo 18º ano consecutivo, tendo aumentado 24% a partir de 2021.  A Ember estima que as energias renováveis alimentadas pelo sol geraram energia suficiente para alimentar toda a África do Sul.

A geração eólica, entretanto, subiu 17%; o suficiente para alimentar quase todo o Reino Unido.

No total, as fontes de energia limpa (renováveis e nucleares) atingiram 39% da electricidade consumida a nível mundial. A energia hidroeléctrica produziu 15% deste novo recorde, de acordo com os dados da Ember.

Ember
Energia eólica e solar estão a gerar quantidades recorde de energia a nível globalEmber

Apesar deste progresso, a energia derivada do carvão continuou a ser a maior fonte de electricidade a nível mundial, produzindo 36% de toda a energia em 2022.

Mas - como explicou anteriormente o diretor de dados da Ember, Dave Jones - o temido regresso ao carvão durante a crise global do gás nunca chegou a materializar-se.

O crescimento da produção eólica e solar respondeu a 80% do aumento impressionante da procura global de electricidade no ano passado, ajudando a manter o combustível fóssil no solo. A produção de carvão aumentou apenas 1,1%, e a energia proveniente do gás caiu muito ligeiramente 0,2%.

"Estão reunidas as condições para o vento e a energia solar alcançarem uma ascensão meteórica até ao topo", acrescenta Wiatros-Motyka.

"A electricidade limpa irá remodelar a economia global, desde o transporte à indústria e mais além".
Uma nova era de redução das emissões fósseis significa que a energia do carvão será gradualmente reduzida, e o fim do crescimento da energia derivada do gás está agora à vista".

Quais são os países que produzem mais electricidade a partir de energia limpa?

IMAGO/Francis Joseph Dean/REUTERS
Turbinas eólicas na Dinamarca. O país tem a maior proporção de energias renováveis na mistura energéticaIMAGO/Francis Joseph Dean/REUTERS

"A mudança está a acontecer rapidamente", acrescenta a analista sénior de energia - e mais rapidamente em alguns países do que em outros.

A Ember analisou dados de energia de 78 países, representando 93% da procura global de electricidade. O estudo revela que mais de sessenta países produzem actualmente mais de 10% da sua energia a partir do vento e da energia solar.

Alguns países europeus estão à frente. As fontes energéticas da Dinamarca atingiu a maior proporção de energia eólica e solar na sua mistura energética, com 60,8% no ano passado. A Lituânia e o Luxemburgo seguem com 48,4 e 46,6% respectivamente, embora isto represente uma quantidade relativamente pequena de energia em termos de Terawatt-hora (TWh).

Segundo esta métrica, a Alemanha produziu a maior quantidade de energia eólica e solar de qualquer país europeu com 185 TWh, seguida da Espanha e do Reino Unido.

A totalidade da Europa produziu 805 TWh de electricidade a partir do vento e da energia solar, ficando atrás da China com 1.241 TWh (14% da produção energética do país).

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A China é o peso pesado do sector energético global
Li Shuo
Conselheiro Político Sénior, Greenpeace Ásia Oriental

"A China é o peso pesado do sector energético global", comenta Li Shuo, conselheiro político sénior do Greenpeace Ásia Oriental.

"Isto não se deve apenas à escala da China, mas também a outra tendência preocupante do desenvolvimento interno do sector da energia.

"A China tem sem dúvida liderado a expansão global das energias renováveis". Mas, ao mesmo tempo, o país está a acelerar a aprovação de projectos de exploração de carvão".

Os EUA, a Índia e o Japão também fizeram algumas das maiores contribuições para a capacidade solar fotovoltaica global, observa o Dr. Ajay Mathur, director-geral da Aliança Solar Internacional.

Mas Damilola Ogunbiyi, CEO e Representante Especial do Secretário-Geral das Nações Unidas para a Energia Sustentável para Todos, emitiu uma nota de cautela sobre o aproveitamento justo das energias renováveis.

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"O progresso global, embora encorajador, não revela as crescentes disparidades na adopção de energias renováveis, que favorecem desproporcionadamente os países desenvolvidos e as economias emergentes na Ásia", diz Ogunbiyi, que é também co-presidente da UN-Energia.

"Muito mais tem de ser feito para assegurar que os países em desenvolvimento não sejam deixados para trás acorrentados a um futuro dependente de carbono".

O mundo está no bom caminho para a energia "net zero"?

A energia é o sector que mais emissões produz em todo o mundo e a descarbonização progressiva constitui a base para um sistema de energia "net zero".

De acordo com os modelos da Agência Internacional de Energia, a electricidade deverá ser o primeiro sector a atingir "net zero" até 2040, de forma a que toda a economia atinja "net zero" até 2050.
Isso significa que a energia eólica e a energia solar teriam que alcançar 41% da energia global até 2030 - uma melhoria acentuada em relação aos 12% alcançados o ano passado.

A Ember diz que tudo depende das ações tomadas agora pelos governos, empresas e cidadãos para colocar o mundo no caminho em direção à energia limpa.

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A resistência do carvão significa que "o sector energético continua a não cumprir os objetivos "net zero" a nível mundial até meados do século", diz Ogunbiyi.

Mas a boa notícia é que temos as tecnologias de que precisamos. "O caminho a seguir consiste em acelerar o ritmo de adoção das energias renováveis e tornar esta tecnologia num bem público global", diz o Dr. Mathur.

Para enfrentar alguns dos desafios, ele defende políticas mais fortes para facilitar o financiamento e melhorar o acesso a componentes e matérias-primas, bem como uma maior diversificação geográfica da cadeia de abastecimento.

"Além disso, o contínuo desenvolvimento de capacidades, a transferência de subsídios energéticos dos combustíveis fósseis para as energias renováveis, e as mini-redes solares permitiriam um movimento mais rápido para o acesso universal à energia".

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