Quais os bancos europeus que financiam a extração de combustíveis fósseis?

Delegação do banco francês BNP Paribas
Delegação do banco francês BNP Paribas Direitos de autor Benoit Durand / Hans Lucas via Reuters Connect
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Desde o Acordo de Paris em 2016, os 60 maiores bancos do mundo gastaram uns incríveis 4,9 triliões de euros em combustíveis fósseis

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Os maiores bancos do mundo investiram mais de 60 mil milhões de euros no financiamento de combustíveis fósseis no ano passado, segundo os dados contidos num novo relatório.

Compilado pela Rainforest Action Network entre outros, o relatório sobre a Banca e o Caos Climático faz uma leitura sobre as consequências destes investimentos a nível mundial.

Desde que o Acordo de Paris entrou em vigor em 2016 - vinculando os países a limitarem o aquecimento global - os 60 maiores bancos do mundo gastaram uns incríveis 4,9 triliões de euros em combustíveis fósseis.

No ano passado, o relatório revela que um banco canadiano foi o pior infrator. O Royal Bank of Canada (RBC) forneceu às empresas de combustíveis fósseis mais de 38 mil milhões de euros em 2022, ultrapassando o JP Morgan Chase pela primeira vez desde 2019. Mas o banco norte-americano ainda está bem à frente com os seus quase 400 mil milhões de euros no total ao longo dos últimos sete anos.

Embora as multinacionais norte-americanas dominem a cena do financiamento dos combustíveis fósseis, os bancos europeus estão a desempenhar um papel de liderança na concessão de empréstimos e subscrição de dívida também aos gigantes do petróleo e do gás.

Dada a dimensão destas instituições, é provável que veja o seu banco na lista dos financiadores mais sujos. Mas o dinheiro fala, como se costuma dizer, por isso também analisámos onde os seus fundos poderiam ser melhor guardados - e como responsabilizar o seu banco.

Quais os bancos europeus que investem mais em combustíveis fósseis?

Amaury Cornu/Hans Lucas/REUTERS
Marcha pelo clima em Paris, Março de 2022Amaury Cornu/Hans Lucas/REUTERS

O banco francês BNP Paribas continua a ser o pior da Europa de acordo com o relatório.

O financiamento de combustíveis fósseis atinge 18,9 mil milhões de euros no ano passado.

O BNP Paribas é o primeiro banco comercial a ser processado por causa dos empréstimos às grandes companhias petrolíferas e de gás. O processo judicial iniciado por três ONGs - Oxfam, Friends of the Earth e Notre Affaire à Tous poderia criar um precedente fundamental para responsabilizar os bancos pelos compromissos 'net zero' declarados.

O relatório investiga a origem de fundos do maior banco da zona euro para uma série de empresas de combustíveis fósseis, incluindo a BP, Var Energi, TotalEnergies, Saudi Arabian Oil e Shell.

As empresas de combustíveis fósseis são as que cobrem o planeta em petróleo, gás e carvão, mas são os grandes bancos que têm os fósforos
April Merleaux
Gestora de Investigação e Política, Rainforest Action Network

De 2016 a 2022, o Barclays Bank do Reino Unido enviou o maior volume de financiamento para empresas de combustíveis fósseis, principalmente a Exxon Mobil. O HSBC, igualmente com sede na Grã-Bretanha, ocupa o terceiro lugar na lista dos bancos mais favoráveis aos combustíveis fósseis na Europa no ano passado.

"As empresas de combustíveis fósseis são as que cobrem o planeta em petróleo, gás e carvão, mas são os grandes bancos que têm os fósforos", comenta April Merleaux, co-autora e Gestora de Investigação e Política na Rainforest Action Network

"Sem financiamento, os combustíveis fósseis não ardem", afirma.

O financiamento de GNL quase duplicou no ano passado

Stefan Sauer/Alle Rechte vorbehalten/AP
Plataforma "offshore" e um petroleiro de GNL perto da estância balnear de Sellin, AlemanhaStefan Sauer/Alle Rechte vorbehalten/AP

Uma das principais tendências na Europa no ano passado foi a expansão do sector do gás natural liquefeito (GNL), uma vez que os países procuram alternativas aos combustíveis russos.

Os bancos apoiaram o investimento nesta fonte de energia não renovável, apesar dos peritos em energia alertarem que novos projectos eram desnecessários e que levariam a um abastecimento maior do que o necessário.

As 30 maiores empresas que apostaram no GNL utilizaram a crise para garantir quase 50% mais financiamento em 2022, em comparação com 2021, constata o relatório.

O co-autor do relatório Maaike Beenes, líder de campanha na BankTrack, afirma que os bancos estão a fazer um "jogo irresponsável com o nosso clima".

"O próprio ING dos Países Baixos foi um dos piores infratores", explica ela. "Estes projetos de gás não serão capazes de responder às necessidades energéticas a curto prazo da Europa ou de reduzir as contas domésticas - em vez disso, irão fazer-nos dependentes dos combustíveis fósseis durante décadas".

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A ReCommon, uma das mais de 600 organizações da sociedade civil que apoiam o relatório, também chama a atenção para o papel dos dois principais bancos italianos.

"[Unicredit e Intesa Sanpaolo, Ed.] parecem ignorar os alertas da comunidade científica", diz a ativista de finanças e do clima Daniela Finamore, "continuando a alimentar a expansão da indústria dos combustíveis fósseis e a procurar novas oportunidades de negócio, como no caso do GNL".

Entretanto, os bancos europeus BNP Paribas e Crédit Agricole encabeçaram a lista de financiadores de petróleo e gás "offshore" em 2022.

Que bancos europeus não vão investir dinheiro em combustíveis fósseis?

SOPA Images/ Xisco Navarro Pardo / REUTERS
Uma delegação do banco ético Triodos em Valência, EspanhaSOPA Images/ Xisco Navarro Pardo / REUTERS

Com tantos dos maiores bancos do mundo a investirem em projectos poluentes, é difícil saber com confiança em quem podemos confiar as nossas poupanças.

Mudar apenas para os bancos menos bem sucedidos (como o Banco Caixa em Espanha e o Banco Danske da Dinamarca) não parece ser suficiente. Embora seja de notar que o 60º banco da lista, o banco francês La Banque Postale, comprometeu-se a sair completamente do petróleo e do gás até 2030.
Isto prova que os bancos não têm de ser especificamente éticos para tomarem as decisões certas.

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"As decisões de investimento e empréstimo tomadas pelos bancos moldam radicalmente a nossa sociedade e o ambiente", diz Ruairidh Fraser, um investigador da Ethical Consumer, à Euronews Green.

"É importante que os clientes possam descobrir o que os bancos estão a fazer com o dinheiro e que políticas, se as houver, guiam as escolhas".

Numa indústria repleta de zonas sombrias, a transparência é que manda. Fraser aconselha os clientes a procurarem bancos com critérios éticos de empréstimo robustos e divulgação detalhada de empréstimos e investimentos.

E existe um claro vencedor de acordo com a organização alternativa de consumidores. O Triodos Bank publica no seu 'site' detalhes de cada empresa a que empresta dinheiro. Muitas destas empresas estão por detrás de projetos ambientais de impacto - incluindo dois locais na Escócia de reconstrução ambiental liderados pelo "promotor de capital natural" Oxygen Conservation.

Com sede nos Países Baixos, os serviços do Triodos Bank estão igualmente disponíveis no Reino Unido, Bélgica, Espanha e Alemanha.

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Outros bancos éticos líderes em toda a Europa incluem o GLS na Alemanha e o novo banco holandês  Bunq que oferece a possibilidade de ligar as contas de poupança a uma aplicação e ter a liberdade de escolher onde o dinheiro é investido.

Existem várias ferramentas que podem ajudar na busca do melhor banco, tais como Bank.Green e SwitchIt.Green no Reino Unido e o Fair Finance Guide, que está ativo em 15 países.

Prefere não mudar de banco? Aqui está como fazê-los mudar de atitude

"Os bancos preocupam-se com a imagem e reputação pública", diz Beenes da BankTrack.

"Mesmo sem mudar para um banco ético, o que pode ser praticamente um desafio, os clientes dos bancos tradicionais podem realmente ajudar a criar pressão enviando mensagens ao banco exigindo o fim do financiamento da expansão dos combustíveis fósseis e eliminação de todo o financiamento num período temporal com 1,5C".

O relatório sobre a Banca e o Caos Climático quer tornar pública a informação sobre o financiamento bancário de combustíveis fósseis para ajudar a facilitar este tipo de ação por parte do consumidor, diz ela.

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Se o seu banco não tornar públicos os seus critérios de empréstimo e investimentos, Fraser da Ethical Consumer aconselha a escrever ao seu gestor bancário para o solicitar.

"A normalização da transparência é um primeiro passo crucial para responsabilizar o sector financeiro pelas suas políticas 'net zero'".

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