EventsEventosPodcasts
Loader
Encontra-nos
PUBLICIDADE

Análise: Orbán, Meloni e Fiala descontentes com os cargos de topo para UE

Viktor Orbán, Giorgia Meloni e Petr Fiala manifestaram o seu desagrado pela forma como os cargos de topo da UE estão a ser distribuídos.
Viktor Orbán, Giorgia Meloni e Petr Fiala manifestaram o seu desagrado pela forma como os cargos de topo da UE estão a ser distribuídos. Direitos de autor European Union.
Direitos de autor European Union.
De  Jorge Liboreiro
Publicado a
Partilhe esta notíciaComentários
Partilhe esta notíciaClose Button
Artigo publicado originalmente em inglês

Os líderes da Hungria, Viktor Orbán, da Itália, Giorgia Meloni, e da Chéquia, Petr Fiala, estão descontentes com a forma como estão a ser negociados os cargos de topo para as instituições da UE.

PUBLICIDADE

Quem deverá liderar as principais instituições da União Europeia, nos próximos cinco anos? Dez dias após as eleições, a questão continua sem resposta.

Uma cimeira informal, realizada na segunda-feira, não conseguiu fazer o necessário progresso, apesar de existir um trio de candidatos aos lugares de topo: Ursula von der Leyen para a presidência da Comissão Europeia, António Costa para a presidência do Conselho Europeu e Kaja Kallas para o cargo de Alta Representante para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança.

No papel, a seleção preenche todos os requisitos: politicamente diversificada, geograficamente mista e equilibrada em termos de género. É também uma lista de caras conhecidas, que conviveram com os dirigentes, nos últimos cinco anos, e que não deverão causar grandes surpresas.

Ainda assim, não houve acordo. Uma série de reuniões bilaterais e trilaterais entre os três principais partidos - o Partido Popular Europeu (centro-direita), os socialistas e os liberais - ajudaram a colmatar as lacunas, mas ficaram bloqueadas pelas exigências maximalistas do PPE.

Está marcada uma cimeira para 27 de junho para fazer uma nova tentativa.

Entretanto, já começaram as recriminações. Alguns dirigentes manifestaram o seu desagrado e frustração com a forma como as negociações estão a ser conduzidas.

"A vontade do povo europeu foi ignorada hoje em Bruxelas", disse o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, no final da reunião de segunda-feira.

Orbán atacou o PPE, que ganhou confortavelmente as eleições, por dividir os lugares de topo com os socialistas e os liberais, que ficaram em segundo e terceiro lugar, respetivamente.

"Não se preocupam com a realidade", escreveu Orbán. "Não devemos ser ingénuos: vão continuar a apoiar a migração e a enviar ainda mais dinheiro e armas para a guerra entre a Rússia e a Ucrânia."

Um dia depois, o jornal italiano Il Corriere Della Sera publicou um artigo detalhando a zanga da primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, que gostaria de ter mais poder na escolha, mas que se sentiu posta de lado enquanto decorriam as negociações bilaterais. Meloni terá recusado aceitar uma seleção "pré-preparada" sem ter tido primeiro uma discussão "séria e profunda" sobre as eleições.

Depois, um terceiro signatário entrou na luta para apresentar as suas queixas: Petr Fiala, da Chéquia, que estabeleceu uma ligação rebuscada entre a geografia do seu país e a sua pretensão ao poder.

"As regras são claras, as nomeações para os cargos de topo das instituições europeias devem respeitar os interesses políticos e geográficos", escreveu Fiala nas redes sociais. "A Chéquia está no centro da Europa e a nossa futura pasta deve refletir isso". O líder refere-se ao debate sobre as pastas de comissários.

À margem

As queixas de Orbán, Meloni e Fiala resultam de um traço comum que os une: nenhum pertence às três famílias pró-europeias - o PPE, os socialistas e os liberais - que dominaram Bruxelas durante décadas.

Embora essa influência já não seja a de outrora, a "grande coligação" continua a deter a maioria no Parlamento Europeu e a controlar o Conselho Europeu (chefes de Estado e de Governo), com cerca de 75% dos chefes de Estado e de Governo à volta da mesa a pertencerem a um desses partidos.

Foi por isso que mantiveram o método habitual de atribuir os lugares de topo a membros do PPE, dos socialistas e dos liberais em função do seu desempenho eleitoral. Embora esta forma de trabalhar tenha sido criticada como "acordos de bastidores" sem transparência, tem assegurado estabilidade e previsibilidade no ciclo de decisão política do bloco.

PUBLICIDADE

Mas para Orbán, Meloni e Fiala, os ventos da mudança estão a soprar.

O aumento do apoio aos partidos de extrema-direita e de direita nas eleições de junho é por eles visto como o o início de uma revisão mais ampla dos métodos na UE, a começar pela distribuição dos cargos de topo. As suas vozes reforçadas devem ser ouvidas e reconhecidas com maior autoridade, segundo o seu raciocínio.

"O resultado das eleições europeias é claro: os partidos de direita saíram reforçados, a esquerda e os liberais perderam terreno", disse Orbán. "Não vamos ceder a isto! Vamos unir as forças da direita europeia e lutar contra os burocratas pró-migração e pró-guerra".

Viktor Orbán and Giorgia Meloni have developed a close working relation.
Viktor Orbán and Giorgia Meloni have developed a close working relation.European Union.

A aritmética, no entanto, pinta um quadro bastante diferente.

PUBLICIDADE

Embora os nacionalistas tenham feito progressos, não chegaram à "onda maciça" ou ao "surto" que as sondagens previam. Na próxima legislatura, serão mais numerosos mas continuarão a ser uma minoria. A "grande coligação" terá uma maioria de mais de 400 assentos - num total de 720 - e poderá ultrapassar os 450 com a inclusão dos verdes.

Em contrapartida, os dois grupos de extrema-direita - Conservadores e Reformistas Europeus (ECR) e Identidade e Democracia (ID) - terão, em conjunto, mais de 130 lugares, que poderão aumentar se alguns membros não inscritos se juntarem às suas fileiras.

No Conselho Europeu, onde as decisões políticas são tomadas ao mais alto nível, os números são mais claros: o CRE tem dois representantes - Meloni e Fiala - e o ID não tem nenhum. Orbán não é filiado e está de olhos postos no CRE. No entanto, a sua candidatura é objeto de resistência por parte dos membros do grupo pró-Ucrânia, incluindo o partido de Fiala.

Conscientes da sua fragmentação, as figuras da ID promoveram conversações para formar um supergrupo de direita radical e ampliar a sua influência. Mas o esforço tem sido, até agora, infrutífero e depara-se com divergências ideológicas entre as forças, particularmente em relação à Rússia e à China.

PUBLICIDADE

Mesmo que esse supergrupo surgisse e ultrapassasse os socialistas como a segunda maior formação do Parlamento, isso não alteraria os resultados das eleições. A relação de forças no Parlamento e no Conselho manter-se-ia inalterada, com o centro a obter votos suficientes para garantir que os lugares de topo sejam colocados nas mãos daqueles que querem reforçar, e não enfraquecer, o projeto de integração europeia.

Partilhe esta notíciaComentários

Notícias relacionadas

Líderes da UE ainda sem acordo sobre cargos de topo

Líderes da UE debatem cargos de topo e António Costa está no pacote

Von der Leyen recusa participar no debate entre líderes sobre os cargos de topo da UE