Newsletter Boletim informativo Events Eventos Podcasts Vídeos Africanews
Loader
Encontra-nos
Publicidade

Ex-comissário de bordo acusado de enganar companhias aéreas para obter voos gratuitos. Mas como?

Arquivo - Placa do Prince Jonah Kuhio Kalanianaole Federal Building and Courthouse exposta no exterior do tribunal a 22 de janeiro de 2024, em Honolulu
Arquivo - Placa do Prince Jonah Kuhio Kalanianaole Federal Building and Courthouse exposta no exterior do tribunal, a 22 de janeiro de 2024, em Honolulu Direitos de autor  AP Photo/Jennifer Kelleher, File
Direitos de autor AP Photo/Jennifer Kelleher, File
De Jennifer Sinco Kelleher com AP
Publicado a
Partilhar Comentários
Partilhar Close Button

Autoridades dizem que ex-assistente de bordo explorou regalias de companhia aérea durante anos, levantando questões sobre falhas nos controlos de segurança

Um ex-assistente de bordo, acusado de se fazer passar por piloto e por funcionário no ativo de companhias aéreas, terá conseguido que três transportadoras dos EUA lhe dessem centenas de bilhetes gratuitos ao longo de quatro anos, segundo as autoridades federais. Como terá conseguido fazê-lo e por que razão as companhias não detetaram mais cedo a fraude deixam especialistas do setor perplexos.

Dallas Pokornik, 33 anos, de Toronto, foi detido no Panamá após ter sido acusado, em outubro passado, de fraude eletrónica num tribunal federal no Havai. Declarou-se inocente em 20 de janeiro, após ser extraditado para os Estados Unidos. O seu advogado oficioso federal recusou comentar o caso.

Segundo documentos judiciais, Pokornik foi assistente de bordo numa companhia aérea sediada em Toronto entre 2017 e 2019, e depois usou uma identificação de funcionário fraudulenta dessa transportadora para obter bilhetes reservados a pilotos e tripulantes em três outras companhias. Os documentos não explicam por que razão, num setor focado na segurança dos voos e dos aeroportos, as companhias não reconheceram que as credenciais eram inválidas.

A acusação não identificou as companhias envolvidas, mas referiu que as transportadoras dos EUA estão sediadas em Honolulu, Chicago e Fort Worth, Texas. Um porta-voz da Hawaiian Airlines disse, em 21 de janeiro, que a empresa não comenta litígios. Representantes da United Airlines e da American Airlines não responderam de imediato aos emails da agência noticiosa Associated Press.

Uma transportadora canadiana sediada em Toronto, a Porter Airlines, afirmou, numa declaração enviada por email, estar "incapaz de verificar qualquer informação relacionada com esta notícia". A Air Canada, sediada em Montreal mas com um grande hub em Toronto, disse não ter registos de que Pokornik ali tivesse trabalhado.

Acusações surpreendem especialistas do setor

John Cox, piloto reformado que dirige uma empresa de segurança aeronáutica em St. Petersburg, Florida, classificou as alegações como surpreendentes, tendo em conta as verificações cruzadas que as companhias são capazes de fazer para confirmar o vínculo laboral de um tripulante que procura voar noutra companhia.

As companhias recorrem, em geral, a bases de dados de funcionários no ativo mantidas em sites de terceiros para verificar se alguém é efetivamente empregado.

"A única explicação que me ocorre é que não aparecia como tendo deixado de trabalhar na companhia", disse Cox, numa entrevista telefónica. "Consequentemente, quando as verificações eram feitas na porta de embarque, surgia como funcionário válido."

As companhias aéreas de passageiros costumam oferecer, quando há lugares, assentos em lista de espera gratuitos ou fortemente descontados aos seus próprios tripulantes ou aos de outras transportadoras, uma cortesia que ajuda o setor a funcionar melhor, ao levar os tripulantes onde precisam de estar.

Os funcionários podem também usar o benefício para familiares diretos em viagens de lazer. Por vezes, podem ocupar um dos "assentos de observação" com cintos de ombro no cockpit ou na cabine, mas as regras federais proíbem a utilização dos assentos do cockpit em viagens de lazer.

Como funciona normalmente o controlo

Membros da tripulação que têm de viajar para outra cidade por motivos de serviço passam pela segurança do aeroporto através da leitura de um cartão "known crew member" ligado a uma base de dados com a sua fotografia, explicou Bruce Rodger, piloto de companhia aérea que possui uma empresa de consultoria aeronáutica. Apresentam também o crachá de funcionário e um documento de identificação emitido pelo governo.

O uso do processo known crew member para viagens de lazer não é permitido, acrescentou.

Para viagens de lazer, os tripulantes podem comprar bilhetes em lista de espera com desconto ou pedir um assento de observação. Com um bilhete em lista de espera, o tripulante acede às portas de embarque através do controlo de segurança normal do aeroporto. É possível ter um bilhete em lista de espera e solicitar um assento de observação, o que permite voar gratuitamente.

O comandante do avião tem de aprovar quem ocupa os assentos de observação no cockpit. Muitas vezes é um piloto licenciado, mas os regulamentos da Administração Federal de Aviação (FAA) também permitem a presença de outras pessoas com razões oficiais, como um avaliador do Departamento de Defesa, um controlador de tráfego aéreo em observação, um membro da tripulação ou um representante do fabricante.

Em 2023, um piloto de companhia aérea fora de serviço, que seguia no cockpit de um voo da Horizon Air, disse "Não estou bem" pouco antes de tentar desligar os motores em pleno voo. Esse piloto, Joseph Emerson, disse depois à polícia que enfrentava depressão. Um juiz federal condenou-o, em novembro passado, ao tempo já cumprido.

Pokornik pediu para viajar no cockpit, dizem os procuradores

Procuradores dos EUA disseram, em 20 de janeiro, que Pokornik pediu para se sentar no assento de observação do cockpit, normalmente reservado a pilotos fora de serviço. Os documentos judiciais não esclarecem se alguma vez chegou a viajar no cockpit de um avião, e a Procuradoria dos EUA em Honolulu recusou dizer.

Há anos, o setor apertou os critérios dos benefícios de viagem concedidos aos funcionários após o célebre caso de Frank Abagnale, cuja autobiografia de 1980, "Apanha-me Se Puderes", com contornos exagerados, descrevia como se fazia passar por piloto para voar de graça, entre outras burlas. A história ganhou ainda mais fama quando Steven Spielberg a adaptou ao cinema, com Leonardo DiCaprio, em 2002.

Após os atentados de 11 de setembro de 2001, as companhias aéreas e a FAA impuseram restrições adicionais a quem pode embarcar num avião e entrar no cockpit.

Ir para os atalhos de acessibilidade
Partilhar Comentários

Notícias relacionadas

Novos grandes aeroportos vão mudar a forma como voamos

Fitur 2026: Inovação, sustentabilidade e homenagem às vítimas do acidente de Adamuz

Japão constrói o comboio mais rápido do mundo, mas chegará alguma vez à Europa?