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Nagorno-Karabakh: Protagonistas do conflito falam em exclusivo

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Ilham Aliyev e Nikol Pashinyan defenderam posições em entrevista à Euronews
Ilham Aliyev e Nikol Pashinyan defenderam posições em entrevista à Euronews   -   Direitos de autor  AP/ Azerbaijani Presidential Press Office/ Dmitri Lovetsky
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Os fortes combates entre o Azerbaijão e a Arménia em torno do Nagorno Karabakh intensificam-se. O velho conflito reacende-se. Ambos os lados acusam o outro e ambos perderam civis e soldados nos combates.

No ano passado, os dois países concordaram em tomar "medidas concretas para preparar as populações para a paz". No entanto, nos últimos 15 dias aconteceu o período de violência mais longo da região dos últimos 30 anos. Desta vez, o conflito atraiu ativamente outros países e aumenta o perigo de um conflito regional.

Quais são os próximos passos para ambos os países? Até onde e durante quanto tempo irão as hostilidades durar - e a que custo? A comunidade internacional apela repetidamente a um cessar-fogo. O que é necessário para engendrar a paz? E será isso ainda possível?

A euronews convidou ambos os líderes para este programa único e ambos aceitaram delinear as estratégias.

Entrevista com Ilham Aliyev, Presidente do Azerbaijão

Rosie Wright, Euronews: Temos assistido a uma intensa e repetida pressão internacional para um cessar-fogo e para o apaziguar das tensões. Entretanto, os confrontos continuam, com uma escalada porventura ainda maior. Qual é agora o seu objetivo neste conflito?

Ilham Aliyev: O cessar-fogo não pode ser alcançado unilateralmente. Tem de ser uma decisão bilateral. E também tem de ser implementado no terreno. Como sabem, a Arménia atacou-nos no dia 27 de setembro, atingindo as nossas posições militares e danificando as nossas infraestruturas. Atacando os civis. Até agora, há quase 30 civis mortos em ataques arménios, incluindo com mísseis balísticos e bombas de fragmentação.

O nosso contra-ataque foi bem-sucedido. Conseguimos libertar parte dos territórios ocupados. O nosso principal objetivo é restaurar a integridade territorial do Azerbaijão. A Arménia tem de dar-nos um calendário para a retirada das suas tropas dos territórios ocupados. E esse calendário deve ser aprovado pelos países que são mediadores no Grupo de Minsk. Depois disso, os esforços devem-se concentrar-se em alcançar o cessar-fogo.

Os países a que se refere têm pedido repetidamente o cessar-fogo. Porque é que isso não está a acontecer neste momento? Porque é que não está a pressionar para que isso aconteça imediatamente?

Porque temos sido alvo de ataques várias vezes. Nos últimos três meses, houve três ataques ao Azerbaijão. Um em julho, na fronteira entre a Arménia e o Azerbaijão, longe da região de Nagorno-Karabakh. O objetivo da Arménia era ocupar novos territórios do Azerbaijão e não conseguiram fazê-lo. O nosso exército derrotou-os. Depois, a 23 de agosto, enviaram um grupo de sabotagem para cometer atos terroristas contra os nossos civis e pessoal militar. Isso também foi um fracasso para eles, porque o chefe do grupo foi detido. E deu-nos provas precisamente do que estou a dizer. E, no final de setembro, lançaram um grande ataque contra as nossas aldeias e cidades.

Posso dizer-vos que, até hoje, temos quase 900 casas totalmente destruídas ou danificadas e muitos mortos e feridos entre a população civil. Agora a Arménia está a sofrer uma derrota muito amarga e pede um cessar-fogo. Eles próprios violaram o cessar-fogo.

Eles ignoram as resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que exigem a retirada total, completa, imediata e incondicional das tropas arménias. Querem manter o status quo inalterado. E os copresidentes do Grupo Minsk - Estados Unidos, Rússia e França fizeram várias declarações a dizer que o status quo é inaceitável. A Arménia ignorou isto tudo. Mas agora é o próprio Azerbaijão que está a alterar o status quo e penso que isso será um passo importante para uma resolução mais rápida do conflito.

A Arménia ignora as resoluções do Conselho de Segurança da ONU.
Ilham Aliyev
Presidente do Azerbaijão

Sr. Presidente, foram mortos civis de ambos os lados do conflito. Como é que isto se concilia nos vossos objetivos?

É claro que lamentamos a morte de civis. E é óbvio que não era esse o objetivo. Não fomos a origem dos ataques. Na primeira vez, vimos na manhã do dia 27 de setembro o que eles fizeram: atacaram as nossas cidades e aldeias, e nós tivemos de responder. Mas a nossa resposta incide sobretudo nas posições militares, nos tanques e armas.

Tudo o que estamos a fazer no campo de batalha pode ser visto na internet. Os nossos drones e outros equipamentos destruíram apenas objetivos militares nos territórios ocupados. Infelizmente, a Arménia está a utilizar civis para ter mais pessoas no terreno, porque a situação demográfica é muito má. Temos vídeos com civis mesmo ao lado das armas.

A Arménia pode falar igualmente em civis mortos do seu lado, contrariando o motivo pelo qual a violência se reacendeu no dia 27 de setembro. No ano passado, o vosso ministro dos Negócios Estrangeiros dizia que era necessário tomar medidas concretas para preparar as populações para a paz. Estamos a assistir exatamente ao oposto. Como é que estão a tentar limitar o sofrimento das populações civis?

Nós não somos responsáveis por este reacendimento. Como já referi, fomos alvo de um ataque do exército arménio, que está posicionado nos territórios ocupados do Azerbaijão. Para além disso, o regime arménio atual fez tudo para destruir o processo de negociações.

Há exatamente um ano, o primeiro-ministro arménio declarou que o Karabakh é arménio, num encontro que decorreu na zona ocupada do Azerbaijão. Essa declaração destruiu efetivamente o processo de negociação, porque os princípios que estão sobre a mesa, e que são a base para um acordo, exigem o regresso dos territórios ocupados ao Azerbaijão.

E quando vemos o primeiro-ministro arménio a dizer que não haverá um centímetro de terra a regressar ao Azerbaijão, a dizer que o Karabakh é arménio, a organizar colonatos ilegais com estrangeiros nos territórios ocupados - o que constitui uma violação flagrante da Convenção de Genebra -, está a destruir o processo de negociações. Depois, atacaram-nos três vezes - julho, agosto e setembro e atiram a responsabilidade para cima de nós. Agora que os vencemos no campo de batalha, fazem apelos a todo o lado para parar o Azerbaijão. Nós queremos parar, mas queremos que a ocupação pare. Por isso, a mensagem principal deve ser dirigida à Arménia. Nós não estamos em terras arménias. Estamos nas nossas terras. Há 27 anos que são terras nossas.

Euronews
Ilham Aliyev em entrevistaEuronews

Uma coisa que a Arménia diz é que a Turquia está a exercer, de facto, uma influência muito forte, incluindo no fornecimento de ajuda militar. Até que ponto diria que a Turquia está a acelerar e a impulsionar o seu país e as suas ações neste conflito?

São informações completamente falsas. A Turquia é um grande aliado, um parceiro, um país irmão. Estamos muito gratos ao governo turco, ao presidente turco, ao povo turco, pelo apoio que nos dão. Mas não há qualquer outro envolvimento da Turquia neste conflito.

Ao veicular uma notícia tão falsa nos meios de comunicação social, a Arménia está a tentar menorizar a capacidade do exército azerbaijanês. Nós lutamos por nós mesmos. Sim, comprámos armas à Turquia, mas não só. O nosso principal fornecedor de armas não é a Turquia. Toda a gente sabe disso, provavelmente. Portanto, o facto de comprarmos equipamento turco moderno, incluindo drones de combate, não devia ser um problema para ninguém, porque a Arménia recebe armas de graça. Nós pagamos por elas. A Arménia recebe-as gratuitamente.

Continuamos a falar de armas e continuamos a falar de combates. A diplomacia ainda é uma opção para si? Considera sentar-se à mesma mesa e negociar com o primeiro-ministro da Arménia para encontrar outras soluções para o conflito?

Posso dizer-lhe que, durante o meu mandato como presidente, tive provavelmente dezenas de conversas com dois antigos presidentes arménios e com o atual primeiro-ministro. Durante esses encontros foram alcançados progressos substanciais na mesa de negociações. Elaborámos os princípios que hoje constituem a base para a resolução do conflito. E fomos construtivos. As negociações estão a decorrer desde 1992. Durante quase 30 anos, vivemos na esperança. Os mediadores diziam-nos para esperarmos um pouco mais, porque iria surgir uma abordagem mais construtiva do lado arménio. Mas quando este primeiro-ministro chegou ao poder, na sequência do golpe de Estado de há dois anos, destruiu completamente o processo de negociações.

Estive reunido com ele muitas vezes. Mas são reuniões que não fazem sentido nenhum. Ele já me disse que não vão devolver os territórios. Disseram-me que o Nagorno- Karabakh tem de ser acomodado à Arménia. É uma proposta completamente inaceitável para mim e para os mediadores. O governo arménio devia mudar de posição, devia abster-se de ter uma posição de grandiosidade, devia deixar de dizer que o Karabakh é a Arménia, porque não é verdade e assim está a destruir as negociações. Estamos a regredir. O nosso ministro dos Negócios Estrangeiros vai a Genebra para se reunir com os embaixadores do Grupo de Minsk. Tanto quanto sei, o ministro dos Negócios Estrangeiros arménio devia lá ter ido no início do mês, mas ignorou completamente. Não foi lá. O nosso ministro foi. Isso mostra quem tem vontade de negociar e quem está apenas a lançar acusações contra o Azerbaijão.

O atual primeiro-ministro arménio destruíu todo o processo de negociações
Ilham Aliyev
Presidente do Azerbaijão

Entrevista com o primeiro-ministro da Arménia, Nikol Pashinyan

Rosie Wright, euronews: Senhor primeiro-ministro, a ONU, o grupo de Minsk e a União Europeia apelaram a um cessar-fogo imediato, mas os combates prosseguem. Pode explicar-nos o que pretende alcançar aqui?

Nikol Pashinyan: O mais importante é que demos as boas-vindas à comunidade internacional e aos copresidentes do Grupo de Minsk da OSCE, reconhecendo o que tem estado a acontecer. Acolhemos favoravelmente as declarações do Grupo de Minsk da OSCE - os copresidentes, os países, presidentes e ministros dos negócios estrangeiros. a Turquia disse que o Azerbaijão NÃO deve cessar as hostilidades. E o Azerbaijão tem-se mantido essencialmente dentro das diretrizes que lhe foram dadas pela Turquia. A declaração hoje feita pelo Alto Representante da UE para a Política Externa confirma esta situação. Não se pode esquecer que há grupos terroristas em luta do lado azerbaijanês, que estão envolvidos nas hostilidades, que são recrutados e transportados para a zona de conflito pela Turquia. E o facto de os arménios em Nagorno Kharabagh, no preciso momento em que vos falo, estarem sob ameaça, porque todas as cidades e aldeias estão sob constante bombardeamento por foguetes e mísseis, incluindo a capital StepAnakert. Penso que a comunidade internacional nesta situação deveria atuar agora decisivamente e reconhecer a independência de Karabakh.

Euronews
Nikol Pashinyan em entrevistaEuronews

O Ministério da Defesa do Azerbaijão disse que as suas forças estão a bombardear algumas das cidades atingidas. Há baixas civis de ambos os lados e queria perguntar-lhe: Está à procura da paz?

Com certeza. O exército de Defesa de Nagorno Karabagh fez ataques e o Ministério da Defesa de Nagorno Karabakh explicou claramente que esses ataques tinham de ser feitos porque não havia outra solução. Era a única forma de parar os ataques com roquetes azerbaijaneses e os ataques com mísseis contra as cidades e aldeias de Nagorno Karabakh e contra os civis.

Não há consenso de nenhum dos lados sobre quem é responsável pela violência que recomeçou no dia 27 de setembro. O seu Ministro dos Negócios Estrangeiros fez uma declaração, no ano passado, dizendo que iria preparar a população para a paz, mas não é isso que estamos a ver. Gostaria de compreender até que ponto se sente apoiado para agir. É talvez porque se sente apoiado pela Rússia? Até que ponto é que isso impulsiona algumas das suas decisões e ações?

Paz como sempre. Esse tem sido o nosso principal objetivo desde o dia em que fui eleito primeiro-ministro. Disse que temos de nos esforçar por encontrar uma solução que seja aceitável para o povo da Arménia, para o povo de Nagorno Karabakh e para o povo do Azerbaijão. E eu sou o primeiro líder envolvido nas negociações que diz oficialmente que qualquer solução deve ser aceitável também para o povo do outro lado. O problema é que o Azerbaijão não aceita e não aceitou oficialmente esta abordagem. Para eles, a única solução é através da limpeza étnica do Nagorno Karabakh, que, totalmente limpa de arménios, ficaria 100% sob controlo azerbaijanês. Essa é uma ameaça de genocídio. Atualmente, os terroristas internacionais estão envolvidos na implementação desse genocídio. Foram recrutados e trazidos para a região pela Turquia. Estão a lutar do lado do Azerbaijão. Este facto já foi reconhecido por países da região e uma série de países europeus. Por isso, gostaria de destacar o seguinte: Se queremos travar a catástrofe humanitária e travar o crescimento deste conflito, a comunidade internacional precisa de mostrar determinação e reconhecer a independência de Nagorno Karabakh.

Para o Azerbaijão, a única solução é a limpeza étnica
Nikol Pashinyan
Primeiro-ministro da Arménia

A comunidade internacional também está atenta às vossas ações e devemos salientar que há vítimas civis de ambos os lados. Há pessoas que morreram no Azerbaijão como resultado de ações que o senhor aprovou. Que medidas estão a tomar neste conflito para tentar limitar o sofrimento das pessoas apanhadas no meio desta violência?

Quero deixar uma coisa clara: Se perguntar quem desencadeou este ataque, penso que nos meios de comunicação internacionais e no seio da comunidade internacional existe informação suficiente para saber que a Arménia e Karabakh não podem ter iniciado esta guerra, pela simples razão de que não temos nada a fazer ali, em termos militares. A nossa tarefa é apenas política. O Azerbaijão é o único país que nos 15 anos anteriores à guerra, nos 15 meses, 15 semanas, 15 dias e 15 horas que precederam a guerra ameaçou constantemente resolver esta questão por meios militares. Isso não é segredo. Vamos analisar publicamente as declarações feitas pelo Azerbaijão e pela Turquia. Vamos analisar publicamente a razão pela qual terroristas foram trazidos para o Azerbaijão, para a linha de combate. Que outro objetivo poderia existir para um país recrutar terroristas noutro país? Se não está a planear uma agressão militar, porque é que o Azerbaijão aceitaria que os terroristas fossem transportados para o seu território? Pensamos que o mais importante, agora, é acabar com a violência. Para isso, o Azerbaijão precisa de por fim aos seus ataques. E, claro, a paz na região. O melhor instrumento para isso, na nossa opinião, é o reconhecimento pela comunidade internacional da independência de Karabakh.

Está preparado para parar os ataques?

Sim, claro. Mas isso não significa ficar à espera e deixar que alguém venha cometer um genocídio contra o nosso povo. Não atacámos ninguém. As nossas ações e as ações de Karabakh são apenas de autodefesa. Não temos o propósito de matar ninguém. O nosso único objetivo é proteger o povo arménio de outro genocídio. O nosso propósito é de autodefesa.

O nosso único objetivo é proteger o povo arménio de um novo genocídio.
Nikol Pashinyan
Primeiro-Ministro da Arménia

O que seria uma resolução aceitável para si? Existe uma forma diferente de encontrar uma resolução para este conflito que não envolva violência?

A nossa posição tem sido e continua a ser que a questão de Karabakh não pode ser resolvida através da violência. Nenhuma solução pode ser conseguida através da violência. Mas a política do Azerbaijão tem sido um plano para resolver esta questão de forma violenta. A Arménia tem estado sempre pronta para o compromisso. É o Azerbaijão que não quer, de forma alguma, qualquer compromisso. Eles não querem compromissos. A única solução, para eles, é que os arménios de Karabakh, que sempre foram mais de 80% da população do território, sejam deslocados. Que Karabakh passe por uma limpeza étnica e se torne numa área livre de arménios. Estas pessoas não podem simplesmente deixar as suas terras de origem, de há milhares de anos, só porque o Azerbaijão o exige, pelo que têm de se defender e têm esse direito à autodefesa. Não há aqui outro objetivo para Nagorno Karabagh além da autodefesa.