Espanha pode apertar o cerco aos abusos online dirigidos a cientistas do clima após detetar um aumento “alarmante” de discurso de ódio
Espanha definiu a “luta contra a desinformação” como prioridade máxima depois de assistir a um aumento do discurso de ódio dirigido a cientistas do clima.
A ministra do Ambiente, Sara Aagesen, diz que o ministério analisou vários estudos que detetaram um aumento “alarmante” na intensidade, frequência e violência dos ataques que atingem meteorologistas, comunicadores e jornalistas especializados em questões climáticas.
Um dos estudos mostra que 17,6 por cento das mensagens hostis publicadas na X (antigo Twitter) incluíam “discurso de ódio, ataques pessoais e denegrimento” visando cientistas que partilhavam “informação correta e verificada”.
Aagesen escreveu agora ao Ministério Público a alertar para a tendência, que, segundo especialistas, pode corroer a compreensão pública da crise climática, afirmando que os “ajudará da forma que considerem adequada”.
Cientistas do clima enfrentam enxurrada de abusos
Os abusos online contra cientistas do clima não são novidade. Um estudo de 2025, publicado na Social Inclusion, analisou meio milhão de mensagens publicadas na X entre 31 de dezembro de 2021 e 19 de abril de 2023 que mencionavam a AEMET, a agência meteorológica estatal de Espanha.
Com recurso a algoritmos de deteção de discurso de ódio e técnicas de mineração de texto, concluiu que um quarto das mensagens apresentava “algum grau de hostilidade” para com a AEMET, os seus funcionários e o seu trabalho científico.
“Uma parte considerável do discurso de ódio foi expressa através de comentários depreciativos e insultos dirigidos a meteorologistas, o que indica uma tendência mais ampla de anti-intelectualismo e cepticismo em relação à competência científica”, lê-se no estudo.
Investigadores alertaram que a disseminação de teorias da conspiração, sobretudo ligadas à geoengenharia e a “chemtrails”, está diretamente associada a abusos contra cientistas do clima.
“No campo da saúde, da ciência e das alterações climáticas, estas campanhas de desinformação nas redes sociais andam a par da geração de discurso de ódio dirigido a atacar os atores sociais envolvidos”, acrescenta o estudo.
“Isto descredibiliza o seu discurso, mina a credibilidade da investigação e influencia a adoção de medidas que implicam mudança económica ou social.”
Assédio online deixa marca nos cientistas do clima
Em 2022, cientistas do clima em toda a Europa foram convidados a participar num inquérito online, conduzido pela YouGov. Das 468 respostas, 183 afirmaram ter sofrido assédio ou abusos online que afetaram a sua saúde, trabalho ou forma de comunicar.
Segundo a Global Witness, a maioria dos visados teve a sua credibilidade (81 por cento) ou o seu trabalho (91 por cento) atacados. Entre os cientistas que se identificaram como mulheres, características pessoais foram igualmente alvos frequentes.
Na verdade, o sexo ou género foi visado “muito” ou “bastante” em 34 por cento das mulheres afetadas e apenas em 3 por cento dos homens afetados.
Este abuso generalizado tem um impacto claro no bem-estar dos cientistas do clima, com mais de um quinto a reportar episódios de depressão. Oito por cento disseram ter recebido ameaças de morte.
“Já vi a minha quota de assédio online”, diz a Dra. Shouro Dasgupta, economista ambiental no Euro-Mediterranean Center on Climate Change.
“Sempre que apareço nos meios de comunicação social, há algum assédio na X e no Facebook. E costuma vir, claro, dos suspeitos do costume: negacionistas do clima, o exército de bots, pessoas desagradáveis em geral.”
Dasgupta foi alvo de insultos racistas por mensagem privada, razão pela qual, diz, muitos especialistas do clima mantêm os perfis nas redes sociais fechados.