Chanceler alemão Olaf Scholz tornou-se um grande problema para a Ucrânia

O Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenskyy, encontra-se com o Chanceler alemão Olaf Scholz durante uma cimeira da NATO em Vilnius, na Lituânia.
O Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenskyy, encontra-se com o Chanceler alemão Olaf Scholz durante uma cimeira da NATO em Vilnius, na Lituânia. Direitos de autor Yves Herman, Pool Photo via AP
De  Andrew NaughtieTamsin Paternoster
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Artigo publicado originalmente em inglês

Entre fugas de informação, conferências de imprensa pouco discretas e uma política confusa, o chanceler alemão está em maus lençóis.

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Depois de meses do que parecia ser um impasse efetivo, está a instalar-se uma nova narrativa do conflito ucraniano: a menos que o Ocidente aumente e acelere o seu apoio às forças armadas ucranianas, a Rússia poderá em breve ter uma grande janela de oportunidade.

Como a Câmara dos Representantes dos EUA ainda não aprovou um novo pacote de ajuda militar norte-americana, os aliados europeus da NATO estão a aumentar as suas contribuições para o esforço de guerra. Mas nem todos estão na mesma página - e a maior economia do continente está subitamente a parecer um grande problema político e estratégico tanto para a Ucrânia como para a NATO como um todo.

A Alemanha tem percorrido um longo caminho desde a invasão russa em fevereiro de 2022. O então relativamente novo governo liderado pelo chanceler Olaf Scholz supervisionou uma grande mudança na política de defesa alemã ao anunciar que o país forneceria equipamento militar à Ucrânia, uma medida que ajudou a provar o quão seriamente o Ocidente, como um todo, estava a encarar o conflito.

Desde então, porém, o papel dos alemães na guerra tem sido algo confuso. Por um lado, os euros e o material alemão têm chegado à Ucrânia, embora de forma intermitente. O Ministério da Defesa do país reconhece claramente a gravidade do conflito: tem instado cada vez mais a Europa a antecipar uma maior ameaça russa a outros países para além da Ucrânia e está a enviar batalhões prontos para o combate para a Lituânia, o que significa que as tropas alemãs estarão estacionadas a apenas 100 quilómetros da fronteira russa.

Mas, por outro lado, o governo de Scholz tem resistido às pressões para partilhar com os ucranianos um dos seus meios militares mais poderosos, precisamente quando estes mais precisam dele.

Um míssil Taurus voa durante um exercício militar ao largo da costa da Coreia do Sul.
Um míssil Taurus voa durante um exercício militar ao largo da costa da Coreia do Sul.AP/Copyright 2017 The AP. All rights reserved.

O item em questão é o míssil Taurus, um míssil furtivo com um alcance de 500 quilómetros - o dobro do alcance do míssil britânico Storm Shadow e do míssil francês Scalp, ambos utilizados pela Ucrânia para atingir alvos militares russos importantes.

Os ucranianos têm vindo a pedir o sistema Taurus há meses, mas Scholz tem recusado até agora. O chanceler afirmou que os mísseis não podem ser enviados para a Ucrânia porque isso implicaria a colocação de tropas alemãs no terreno para os programar, uma medida que, segundo ele, poderia ameaçar uma escalada perigosa.

Scholz cometeu um grave erro diplomático numa cimeira recente, quando deu a entender que as forças francesas e britânicas estão a operar mísseis de cruzeiro que estão ostensivamente sob controlo ucraniano - algo que nenhum dos países admite que esteja a acontecer. O presidente da Comissão dos Assuntos Externos da Câmara dos Comuns do Reino Unido considerou os comentários "errados, irresponsáveis e uma bofetada na cara dos aliados".

Mas pior do que a recusa de Scholz em enviar Taurus para a Ucrânia foi a recente fuga de informação de uma gravação em que se ouviam oficiais da Força Aérea alemã a contradizer diretamente o argumento de Scholz, confirmando que o míssil não exigiria, de facto, o envio de efetivos alemães para a Ucrânia.

A gravação foi revelada pelos meios de comunicação russos, com Moscovo a ameaçar com "consequências terríveis" para a Alemanha se o Taurus for usado na Ucrânia.

O antigo presidente Dmitry Medvedev, que desde a invasão da Ucrânia tem manifestado uma das retóricas mais extremistas do Kremlin, respondeu com duas tiradas nacionalistas através da aplicação de mensagens Telegram, partilhando um poema da época da Segunda Guerra Mundial intitulado "Matem-no!" e escrevendo: "O apelo da Grande Guerra Patriótica voltou a ser relevante: 'MORTE AOS OCUPANTES ALEMÃO-NAZIS!'".

Olaf Scholz embarca num avião da Força Aérea na secção militar do aeroporto de Berlim-Brandemburgo.
Olaf Scholz embarca num avião da Força Aérea na secção militar do aeroporto de Berlim-Brandemburgo.Michael Kappeler/(c) Copyright 2024, dpa (www.dpa.de). Alle Rechte vorbehalten

Apanhados em flagrante

O facto de uma conversa tão sensível ter sido gravada e divulgada, sobretudo pelos russos, horrorizou muita gente na Alemanha e na NATO em geral. Mas a revelação de que o pretexto público de Scholz para reter o Taurus não tem fundamento causou uma profunda indignação.

Segundo Benjamin Tallis, membro sénior do Conselho Alemão de Relações Externas, a gravação mostra que o chanceler não está verdadeiramente empenhado numa vitória ucraniana.

"Os argumentos de Scholz foram desmontados um a um e revelaram-se desculpas. Os aliados enviaram armas semelhantes e não sofreram qualquer retaliação. Tudo o que Scholz está a fazer é projetar fraqueza e tornar a Alemanha mais um alvo.

"Depois da fuga de informação sobre o Taurus, parece que Scholz teme realmente a eficácia da arma. Isto revela a sua posição de não querer que a Ucrânia ganhe - e é uma abordagem que desilude todos os europeus, tornando-nos menos seguros."

Momento inoportuno

Os recentes avanços russos no leste do país devem-se em grande parte à falta de munições do lado ucraniano, que Kiev e alguns dos seus aliados atribuíram à lentidão de certos países ocidentais em reabastecer o esforço de guerra.

Para além de continuarem a infligir baixas importantes aos militares russos - que Kiev afirma terem perdido mais de 400 mil soldados desde fevereiro de 2022 - as Forças Armadas ucranianas estão atualmente a concentrar-se na destruição de bens militares de elevado valor que os russos terão dificuldade em substituir, entre os quais um navio-patrulha russo de alta tecnologia que foi atingido por um drone marítimo a 4 de março.

Estes ataques têm múltiplas vantagens: para além de não custarem nada em vidas ucranianas, minam as capacidades táticas da Rússia e desafiam a ideia de que os seus enormes recursos oferecem qualquer garantia de vitória. O mesmo se aplica aos ataques com mísseis e drones dentro do território russo, em particular na região fronteiriça de Belgorod, que a Ucrânia já visou várias vezes.

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Mas sem equipamento ocidental suficiente para prosseguir estes esforços, e com cada vez mais relatos de tropas a recuar de posições com munições esgotadas, a Ucrânia terá dificuldade em manter vivas as esperanças dos seus aliados mais próximos.

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