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Sviatlana Tsikhanouskaya: "Não tenho medo da Rússia"

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Sviatlana Tsikhanouskaya: "Não tenho medo da Rússia"
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É a face global do movimento de protesto da Bielorrússia, uma professora inesperadamente empurrada para os holofotes. Assumiu o papel de líder depois do marido, candidato à presidência do país, ter sido preso.

Sviatlana Tsikhanouskaya vive agora no exílio na Lituânia mas, a partir daí, conseguiu galvanizar o movimento de protesto e encontrar-se com líderes da UE, enquanto tenta forjar um caminho para o país após as disputadas eleições de agosto.

E é o que ela está a fazer aqui, no GLOBSEC em Bratislava.

Isabelle Kumar, euronews: Antes de mais, gostaria de lhe falar sobre o mandado de captura que lhe foi feito pela Rússia. Como reagiu a isso quando soube?

Sviatlana Tsikhanouskaya, líder da oposição bielorrussa: Não mudou nada. O problema é deles. Estamos a lutar pela vitória e só depois é que posso ir para casa.

Como se sente, pessoalmente, quando tem um adversário como a Rússia que quer deter os seus esforços para trazer a democracia ao seu país"?

Sabe, a questão não está na Rússia. A questão está na Bielorrússia, estamos a falar da Bielorrússia e temos de prestar atenção à Bielorrússia, não à Rússia. A nossa responsabilidade é resolver esta crise política dentro da Bielorrússia.

Temos de prestar atenção à Bielorrússia, não à Rússia.
Sviatlana Tsikhanouskaya
Líder da oposição bielorrussa

Não fica assustada por ter a cabeça a prémio por parte da Rússia?

Não (ri).

É uma mulher muito corajosa. Por isso, tem-se encontrado com toda uma série de líderes da UE aqui em Bratislava. Antes esteve também com Angela Merkel. Tem falado igualmente com Emmanuel Macron. Há muitas palavras, mas que compromissos concretos e exequíveis é que assumiram consigo?

Todos os líderes com quem me encontrei são extremamente solidários com o povo bielorrusso. Compreendem pelo que estamos a lutar, porque estamos a fazer isto, o objetivo desta luta. Neste momento preciso de mediação na organização de negociações com as nossas autoridades, por isso pergunto se podem ser mediadores. Penso que vão ser úteis nesta questão.

A senhora gostaria que Angela Merkel, a chanceler alemã, mediasse. Ela disse que sim?

Diz que fará o seu melhor para nos ajudar nesta questão.

E como?

Ao ajudar a procurar a melhor saída, porque ela tem muita experiência na política e sabe como organizar melhor as coisas, se isso for possível. Talvez enquanto esta mediação está a ser organizada possa acontecer algo mais e consigamos ver uma outra saída para esta situação. É uma mensagem para os outros países: Precisamos desta ajuda, mas avançaremos dentro do país, quer seja possível mediar ou não.

Esta é uma questão interna da Bielorrússia, mas a Rússia precisa de fazer parte da solução. Como é que vai trazer Vladimir Putin para estas negociações?

Temos de distinguir o povo russo do Kremlin. Porque somos amigos do povo russo. Temos lá familiares e amigos. No futuro, depois da chegada de um novo presidente à Bielorrússia, queremos continuar esta relação, tal como relações comerciais. Somos vizinhos para sempre. Queremos mesmo alargar esta relação com a Rússia. Mas é uma pena que o Kremlin tenha apoiado o regime bielorrusso, não há nada que possamos fazer em relação a isso. Estamos prontos para falar com o Kremlin, estamos ansiosos por falar com eles. E é uma pena que não tenhamos conseguido encontrar, de momento, quaisquer contactos.

Mostrou fotografias das violações dos direitos humanos no seu país. Centenas de pessoas são detidas todas as semanas, sempre que há manifestações. Gostaria de ver o Presidente Lukashenko responder no Tribunal Penal Internacional?

Deve ser um tema de negociação.

Mas será sujeito a negociação?

Com certeza, porque é mais fácil deixá-lo ir. Não temos um sentimento de vingança. Só queremos construir um novo país, um país democrático. E se essa é uma saída para ele ir para algum lado, para a beira-mar e passar lá o resto do tempo, penso que é possível.

Está preocupada que o movimento de protesto que tem estado a decorrer semana após semana, trazendo tanta gente para as ruas, morra? Se não houver mudança, se a comunidade internacional não o apoiar da forma que gostaria e não provocar essa mudança?

O movimento de protesto não se vai extinguir. As manifestações podem desvanecer devido ao tempo ou outros fatores, não sei. Mas os protestos não vão desaparecer, porque o nosso povo nunca poderá voltar ao estado de escravidão que vivemos durante 26 anos. Tudo mudou. Sentimos que estamos unidos, que somos uma nação e orgulhamo-nos de sermos o povo bielorrusso. Portanto, os bielorrussos estão prontos para lutar até à vitória e as autoridades tem de compreender isto.

Como explica aos seus filhos o que está a acontecer? Eles já viveram tanto. O pai está na prisão. A mãe teve de viajar de repente. São crianças pequenas. Eu sou mãe também. Como é que lhes explica isto?

A minha filha mais nova tem apenas cinco anos e não sabe que o pai está na prisão. A situação com ela é pior porque sente muita falta do pai e todas as noites pergunta quando é que ele vai voltar e diz que tem saudades dele. Digo-lhe que está numa viagem de negócios e que vai voltar muito em breve. Todas as noites a mesma história. O meu filho mais velho compreende onde está o pai, mas não me faz muitas perguntas, porque é suficientemente adulto para compreender que é doloroso. Por isso, de alguma forma, conseguimos aguentar".

Todas as noites, a minha filha pergunta-me quando o pai vai voltar.
Sviatlana Tsikhanouskaya
Líder da oposição bielorrussa

Como se lida com toda esta tensão? Como se lida com tudo isto? Acabou de passar por uma mudança tão grande. De repente, é uma figura que toda a gente reconhece no mundo. Como é que lida com tudo isto?

Somos mulheres. Somos fortes. Somos muito mais fortes do que aquilo que as pessoas pensavam antes em relação às mulheres. O meu povo é a minha inspiração, é o que me dá força para seguir em frente.