Numa entrevista à Euronews, a comissária Šuica procurou distanciar-se do Conselho de Paz de Trump, mas não excluiu a possibilidade de continuar a participar nas reuniões da controversa iniciativa, a fim de contribuir para o futuro de Gaza no pós-guerra.
A comissária europeia para o Mediterrâneo, Dubravka Šuica, respondeu às críticas sobre a sua presença na primeira reunião do Conselho de Paz do presidente dos EUA, Donald Trump, em fevereiro - poucos dias antes de os EUA e Israel desencadearem a guerra com o Irão - dizendo que a UE "não legitimou" a controversa iniciativa.
Šuica provocou reações negativas entre os países da UE quando participou na reunião convocada por Trump em Washington, a 19 de fevereiro, como observadora. França e Espanha afirmaram que a sua presença violava os tratados da UE, uma vez que a instituição que representa não tem competência para definir a política externa da UE.
Catorze Estados-membros da UE enviaram representantes diplomáticos ou oficiais para a reunião, apesar de vários governos da UE e o próprio executivo da UE terem expressado grandes dúvidas sobre a legitimidade do Conselho e a compatibilidade com a Carta das Nações Unidas.
Dez dias depois, os EUA e Israel lançaram os primeiros ataques contra o Irão, desencadeando um conflito em espiral no Médio Oriente.
Questionada numa entrevista na segunda-feira se o Conselho de Administração ainda era credível no meio da guerra em curso que ele próprio desencadeou, Šuica disse: "É difícil dizer se é credível ou não".
"Naquele momento, destinava-se à reconstrução de Gaza e penso que, independentemente da situação que se vive no Médio Oriente, não devemos esquecer Gaza", explicou Šuica. "Temos de nos concentrar em Gaza porque a situação continua a ser terrível".
A carta que define o mandato do Conselho de Administração, publicada antes da primeira reunião de trabalho, em fevereiro, não faz qualquer referência a Gaza ou aos territórios palestinianos. O Conselho de Segurança tem sido amplamente criticado pelo seu mandato global, que parece ter como objetivo suplantar as Nações Unidas, e por ter confiado amplos poderes a Trump, como presidente vitalício.
Pressionado sobre a credibilidade do Conselho de Administração na sequência da guerra no Irão, Šuica disse: "Só para esclarecer esta situação, o convite para o Conselho da Paz foi recebido pela presidente (Ursula) von der Leyen, e eu estava a representá-la nessa reunião".
"Por isso, não significa que tenhamos legitimado este conselho. Estávamos lá apenas a observar o que se passava", afirmou, dizendo que era uma "boa ocasião" para ela, enquanto comissária responsável pela cooperação da UE com as nações do Norte de África e do Médio Oriente no Mediterrâneo, se encontrar com os seus homólogos.
"Ao mesmo tempo, não estamos de acordo com algumas das regras de procedimento do Conselho da Paz, com o âmbito e com questões diferentes, por isso não somos membros. Estivemos lá por uma questão de cortesia", acrescentou.
"Só a diplomacia funciona"
A comissária Šuica afirmou também que a União Europeia apela ao "diálogo, ao desanuviamento e à diplomacia" à medida que a crise no Médio Oriente se agrava.
"Não estamos a apoiar nenhum conflito. Estamos a apelar a todos, a todas as forças em presença, para que se desanuvie a escalada, porque isso não traz nada de bom para ninguém", acrescentou a Comissária.
No âmbito do seu mandato, Šuica lançou recentemente um "Pacto para o Mediterrâneo" destinado a reformular as relações com os países da vizinhança meridional - que incluem países do Médio Oriente como o Líbano, a Síria e Israel - num contexto de crescente instabilidade mundial.
O Pacto aborda uma série de questões, incluindo a integração comercial, a migração e a gestão das fronteiras, bem como o papel crescente da região na cadeia de abastecimento da UE em matéria de agricultura, fertilizantes e matérias-primas essenciais. O seu objetivo geral é promover a paz, a prosperidade e a estabilidade.
Questionado sobre o impacto do Pacto num conflito em espiral que põe em risco a segurança e a estabilidade económica da região, Šuica manifestou otimismo quanto à possibilidade de a UE atingir os seus objectivos e de ser aprovado um plano de ação para a aplicação do Pacto quando os dirigentes da UE se reunirem para conversações informais em Chipre, em abril.